A articulação entre estágio e estudos universitários pode assemelhar-se a um verdadeiro malabarismo, e para muitos, essa é uma realidade desafiadora. A carga diária costuma ser pesada, as obrigações se acumulam e a sensação de estar sempre lutando contra o tempo é bastante comum. Não é surpreendente que, conforme aponta a Pesquisa Global da Deloitte de 2025, 40% dos membros da Geração Z e 34% dos Millennials relatem sentir estresse ou ansiedade com frequência. Aproximadamente um terço desses jovens menciona o trabalho como uma das principais fontes de estresse, além das preocupações financeiras de longo prazo.
Em meio a esse cenário, torna-se essencial buscar um equilíbrio entre as atividades acadêmicas e o estágio. A boa notícia é que com escolhas conscientes e uma organização adequada, é possível transformar essa fase em um período repleto de aprendizado, sem comprometer o bem-estar e a saúde mental.
Jéssica Gondim, gerente de gestão de contratos da Companhia de Estágios — uma referência no recrutamento e seleção de estagiários, trainees e jovens aprendizes — destaca que um erro comum entre os iniciantes na carreira é tratar todas as tarefas como se tivessem o mesmo grau de importância. “Há uma romantização da produtividade que leva os estudantes a acreditarem que qualquer dificuldade é resultado de uma péssima gestão do tempo. Contudo, nem sempre essa é a realidade; em muitos casos, o problema reside na sobrecarga de tarefas”, explica.
Nessas circunstâncias, segundo ela, a solução não está em trabalhar mais horas ou sacrificar momentos de descanso, mas sim em rever prioridades, negociar expectativas e estabelecer limites claros. “O estagiário deve aprender a distinguir quais tarefas são urgentes. Nem tudo precisa ser resolvido imediatamente”, orienta.
Ela ressalta que provas acadêmicas e prazos para entregas costumam ter pouca flexibilidade para negociações e devem ser discutidas com os supervisores. É fundamental sempre questionar: ‘Qual é o prazo para entregar este relatório? Este projeto tem prioridade na agenda?’ Reconhecer essas distinções ajuda a evitar frustrações e retrabalhos”, afirma.
A coordenadora de RH da Companhia de Estágios, Ana Eliza Silva, sugere que um bom começo seria implementar um sistema simples para classificar as tarefas. “Separar o que é urgente e não negociável do que é importante mas pode ser adiado ou do que não é prioridade no momento funciona muito bem”, recomenda.
Segundo ela, essa análise auxilia os jovens a saírem do modo automático. “Quando tudo parece urgente, o estagiário vive sob constante tensão. Classificar as demandas ajuda a reduzir a ansiedade e melhora a qualidade das entregas.”
Jéssica Gondim enfatiza ainda que habilidades comunicativas são cruciais neste período. “Informar com antecedência sobre uma semana cheia de provas ou um período intenso na faculdade evidencia maturidade, responsabilidade e comprometimento”, afirma. Para ela, tentar lidar com todas as demandas sozinho geralmente resulta em efeito contrário. “Aqueles que tentam fazer tudo acabam comprometendo tanto seu desempenho no estágio quanto seus resultados acadêmicos”, observa.
O estagiário precisa aprender a priorizar tarefas. Nem tudo que tem para fazer é urgente e precisa ser entregue de imediato”
Tecnologia como aliada
Ana Eliza Silva destaca que ferramentas tecnológicas podem ser grandes aliadas desde que utilizadas com discernimento. “Aplicativos como Google Calendar, Trello ou agendas digitais são úteis para visualizar a rotina e evitar conflitos nos horários. Você pode configurar alarmes no celular para lembrá-lo sobre reuniões ou prazos importantes e ter uma visão clara da sua semana”, esclarece. Contudo, ela recomenda escolher aquelas ferramentas que realmente funcionem para cada indivíduo.
“Muitos jovens se frustram ao tentarem usar ferramentas excessivamente complexas. O ideal é começar com algo simples: organizar o dia, definir horários para início e término das atividades e criar lembretes para compromissos relevantes”, sugere.
Mais do que apenas listas e aplicativos, existe um processo essencial de autoconhecimento pelo qual o estagiário deve passar para descobrir qual tipo de organização melhor se adapta às suas necessidades. “É vital reconhecer seus próprios limites, gatilhos de ansiedade e momentos em que se sente mais cansado”, explica Ana Eliza. Conversar com pessoas confiáveis — como colegas ou familiares — também pode auxiliar na calibragem das percepções e na prevenção de decisões impulsivas.
O estágio deve complementar os estudos
Outro ponto importante ressaltado por Jéssica é que o estágio deve servir como complemento à formação acadêmica do estudante. “Se o trabalho começa a competir diretamente com os estudos universitários, isso indica que algo precisa ser reavaliado. A prioridade do estagiário deve ser sempre sua educação”, afirma.
Além disso, cuidar da saúde mental deve ser uma prioridade absoluta. Embora existam momentos estressantes — seja por provas ou situações desafiadoras na empresa — reservar tempo para descanso, lazer e autocuidado se torna crucial. “Produtividade não significa estar ocupado todos os dias; descansar também faz parte do processo de aprendizado eficaz e do bom desempenho profissional”, conclui.
“Às vezes nossa mente precisa descansar enquanto nosso corpo pede movimento após longas horas sentado diante do computador; em outras ocasiões pode acontecer o inverso: corpo cansado enquanto a mente anseia por leitura ou atividades criativas,” diz Ana Eliza. Alternar entre momentos de descanso físico e estímulo mental é uma estratégia eficiente para prevenir o estresse.
A habilidade de equilibrar trabalho e estágio não se desenvolve instantaneamente; trata-se de um processo contínuo repleto de ajustes deliberados e conversas significativas. Em um mercado profissional exigente como o atual, cultivar essa competência desde cedo pode impactar significativamente não apenas o desempenho profissional dos jovens mas também sua relação com o trabalho ao longo da vida.
