William Starke foi preso em 2010 e apreendeu a restaurar livros durante projeto na Penitenciária Estadual de Ponta Grossa. Restaurador se prepara para sua primeira publicação.

William Starke trabalha com a restauração de livros na Universidade Estadual de Ponta Grossa — Foto: Aline Jasper/UEPG
William Starke trabalha com a restauração de livros na Universidade Estadual de Ponta Grossa — Foto: Aline Jasper/UEPG

Foi restaurando livros que William Starke começou a escrever uma nova página da própria vida. Preso desde 2010, em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, o detento encontrou na cadeia um novo talento: ser escritor. Mas antes de começar a contar as próprias histórias, ele precisou passar pelo caminho do conhecimento.

Atualmente, ele trabalha seis vezes por semana com a restauração de livros e documentos na Biblioteca da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e no Museu dos Campos Gerais.

O restaurador de livros aprendeu a função em 2016, enquanto estava no regime fechado, na penitenciária. Foi por meio de um projeto chamado “Hospital de Livros”.

“Restaurei livros de pessoas importantes. Foi muita coisa boa que eu vivi lá. Hoje se estou na UEPG, restaurando livros de uma biblioteca tão grande, isto é fruto da oportunidade que recebi lá dentro, do meu trabalho e dedicação”, contou.

William diz que faz questão de lembrar das mãos que se estenderam para ele durante o período no regime fechado. Na época em que trabalhava no Hospital de Livros, ele também contribuiu com novas obras por meio de ilustrações e ganhou prêmios.

Há alguns meses na UEPG, o restaurador continua se qualificando para aprimorar a técnica. Ao lado dele está um servidor da universidade, que trabalha há mais de 30 anos na instituição.

“Eu estou me qualificando. Esta qualificação que estou buscando hoje é para que, futuramente, eu volte para a penitenciária e possa ensinar técnicas novas para aqueles que ficaram no Hospital de Livros”, disse.

William está aprimorando técnicas de restauração de livros na universidade — Foto: Aline Jasper/UEPG
William está aprimorando técnicas de restauração de livros na universidade — Foto: Aline Jasper/UEPG

Da prisão à publicação

William foi preso em 2010 e passou para o regime fechado em 2013. O trabalho e o talento ajudaram ele a reduzir a pena, que deveria ser concluída apenas depois de 2021.

A cada três dias trabalhados, William consegue reduzir um dia da pena. No fim de 2018, conseguiu adiantar sua transferência para a Unidade de Progressão. Agora, restam mais 11 meses.

Em 2017, enquanto ainda estava no regime fechado, William começou a se arriscar a escrever a própria obra. “São vários pontos de vista que você observa enquanto está lá dentro da prisão”, disse.

O livro já foi concluído e deve ser publicado em breve. Por enquanto, ele prefere não revelar mais detalhes, já que obra está passando por revisão. Mas adiantou que o livro conta a história de alguém que sai de uma penitenciária, vive uma guerra interna e sofre o preconceito da sociedade.

“Eu nunca imaginei na minha vida que iria escrever um livro. E não sabia que isso iria causar o interesse de outras pessoas”, contou William.

Ao ver a liberdade se aproximar, o restaurador e agora escritor acredita em vida nova. Para ele, todos os presos deveriam passar pelo ciclo de oportunidades para mudarem.

Trabalho na prisão

O diretor da Unidade de Progressão da Penitenciária Estadual de Ponta Grossa (PEPG-UP), Bruno José Propst, conta que um dos principais objetivos da unidade é aproximar os detentos do ambiente social.

Entre as propostas para o caminho até a ressocialização, estão o trabalho e o estudo. Os presos que trabalham são remunerados e conseguem ajudar as próprias famílias, segundo o diretor.

“Esta condição é muito importante para sua recuperação e reinserção socioeconômica, além de criar uma cultura de trabalho e ver no seu esforço uma nova maneira e uma motivação para encarar os desafios da vida”, explica Bruno.

A Penitenciária Estadual de Ponta Grossa oferece trabalho interno para presos — Foto: Silvia Cordeiro/G1 PR
A Penitenciária Estadual de Ponta Grossa oferece trabalho interno para presos — Foto: Silvia Cordeiro/G1 PR

O diretor conta que na Unidade de Progressão em Ponta Grossa, todos os presos têm a oportunidade de exercer uma atividade remunerada. Para isso, eles precisam ter bom comportamento e estarem na fase final do cumprimento da sentença.

Para os presos que estão ainda no regime fechado, também há a possibilidade de trabalho interno, conforme o diretor. Para ele, isso ajuda na reinserção social e socioeconômica.

“Sem dúvidas a melhora é substancial, tanto no comportamento como em outras áreas. Eles sentem-se motivados e prontos para esse retorno à sociedade e a chance de cometerem outro crime diminui bastante”, diz.

Estudo e trabalho são ferramentas para Unidade de Progressão — Foto: Aline Jasper/UEPG
Estudo e trabalho são ferramentas para Unidade de Progressão — Foto: Aline Jasper/UEPG

Na universidade

Atualmente, a UEPG conta com dez detentos trabalhando na instituição. A contratação veio por meio de um convênio da universidade com o Departamento Penitenciário do Paraná (Depen-PR), que existe há alguns meses.

A ideia veio do professor Rauli Gross Junior, chefe de gabinete da reitoria da UEPG. Ele conta que a instituição estava com dificuldade para encontrar mão-de-obra. Por este motivo sugeriu uma parceria com o Depen para a reitoria.

Além da restauração de livros e objetos da biblioteca e do museu, os presos também ajudam na limpeza do campus e na serralheria.

Parte do salário pago fica para os próprios trabalhadores. Outra parte é destinada para a família. Uma última parcela fica para o custeio do sistema penal. A remuneração é de aproximadamente um salário mínimo.

Segundo o professor Rauli, além da melhoria na estrutura do campus, o trabalho desenvolvido pelo convênio tem ajudado a diminuir o preconceito que envolve a ressocialização.

“Está quebrando barreiras. As pessoas olham para os detentos com estigmatização. E eles estão trabalhando perto das pessoas, que nem sabem que eles são detentos. Você está abrindo portas para que a comunidade aceite essas pessoas”, disse.

Inserido novamente no mercado de trabalho, William vê a oportunidade como uma conquista. Para ele, os bons resultados são frutos de um exercício que ajuda na autoestima e o faz sentir útil para a sociedade.

“Minha expectativa agora é conquistar cada vez mais espaço de trabalho. A liberdade vai ser consequência. Eu não estou esperando que ela chegue, estou construindo ela”, pontuou.

William deseja levar conhecimento adquirido para presos em breve — Foto: Aline Jasper/UEPG
William deseja levar conhecimento adquirido para presos em breve — Foto: Aline Jasper/UEPG

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