O homem que ajudou a fundar o Banco Central do Brasil não viveu o suficiente para ver seu neto assumir como seu próximo presidente, mas seu legado parece ter sobrevivido.

Embora Roberto Campos Neto, cuja aprovação pelo Senado para o cargo esteja prevista para o final deste mês, não tenha deixado claro para onde pode levar a política monetária do país, pistas podem ser encontradas ao olhar para seu avô e homônimo, Roberto Campos.

“Campos Neto era muito próximo de seu avô, que era seu principal mentor”, disse Alexandre Aoude, ex-presidente da unidade do Deutsche Bank AG no Brasil, colega do indicado.

O avô, um polêmico economista, diplomata, escritor e político que gostava de enfeitar suas conversas com frases de efeito espirituosas, ajudou a moldar o liberalismo econômico do Brasil nos anos 1950 e 1960, e como ministro do planejamento assinou o decreto que criou o Banco Central em 1964.

O neto, que não quis dar entrevista para esta matéria, até agora tem sido reticente em divulgar suas opiniões publicamente.

Mas seu histórico – Campos Neto, de 49 anos, foi um dos principais executivos na tesouria das Américas no Banco Santander, banco no qual trabalhou por um total de 16 anos – não deixa dúvidas de que entende a linguagem dos mercados.

“Onde quer que ele fosse, ele ganhava dinheiro”, disse Aoude, que é sócio-fundador da empresa de investimentos Vectis Partners, em São Paulo. “Como trader e chefe de tesouraria de bancos e gestor de fundos, ele tomou decisões certas a maior parte do tempo.”

Trabalhando no exterior

Ao assumir seu primeiro emprego no setor público, Campos Neto vai para o Banco Central com um profundo conhecimento dos investidores internacionais.

Grande parte dessa experiência vem de seu trabalho como responsável pela tesouraria do Santander nas Americas, com escritórios nos EUA, México, Chile, Peru, Brasil e Argentina.

Campos Neto também era responsável pelo trading proprietário e market making local e internacional do banco, um trabalho que o levou a conhecer gestores de fundos e executivos de empresas que queriam investir no Brasil.

A experiência no exterior é outra característica compartilhada com seu avô, que serviu como embaixador do Brasil em Washington e Londres. Esses trabalhos lhe valeram o apelido de “Bob Fields” – uma tradução exata do inglês usada como uma maneira de criticar sua afinidade com o capital estrangeiro.

Embora mais tarde em sua vida o avô tenha sido um dos oponentes mais radicais do socialismo ou de qualquer tipo de intervencionismo estatal, em 1951 ele defendeu a criação do banco de desenvolvimento do país, onde mais tarde atuou como presidente.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, o admirava tanto que sugeriu que seu neto comandasse o Banco Central. O presidente Jair Bolsonaro, que deu a Guedes poderes amplos para administrar a economia, concordou.

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